Mazagão Velho: História, Festa de São Tiago e Importância Cultural
Entenda a história de Mazagão Velho, no Amapá, da transferência da Mazagão africana à Festa de São Tiago, ao patrimônio, à memória comunitária e ao turismo cultural.
Mazagão Velho, no Amapá, é um dos casos mais singulares da história colonial portuguesa na Amazônia. A vila está ligada diretamente à antiga Mazagão africana — hoje El Jadida, no Marrocos — e à transferência, no século XVIII, de famílias portuguesas que deixaram o norte da África, passaram por Portugal e Belém e foram encaminhadas para uma nova povoação amazônica.
Mas reduzir Mazagão Velho a uma “cidade histórica” seria pouco. Sua importância cultural está principalmente na forma como a comunidade transformou essa memória em tradição viva: festas religiosas, encenações de mouros e cristãos, vínculos familiares, saberes locais, artesanato, religiosidade e práticas transmitidas entre gerações.
Este conteúdo foi revisado em 11 de setembro de 2026 com base em fontes do Iphan, do Governo do Amapá e estudos patrimoniais. A versão anterior continha datas e afirmações arquitetônicas que não se sustentavam.
Onde fica Mazagão Velho?
Mazagão Velho é um distrito do município de Mazagão, no estado do Amapá. A vila histórica não deve ser confundida com a sede municipal conhecida como Mazagão Novo.
O local está inserido em uma paisagem amazônica marcada por rios, comunidades tradicionais e forte calendário religioso.
Por que Mazagão Velho é tão diferente de outras vilas coloniais?
A origem da comunidade está associada a um processo incomum de deslocamento populacional promovido pela Coroa portuguesa.
Portugal mantinha desde o século XVI a praça fortificada de Mazagão, no litoral do atual Marrocos. Em 1769, a Coroa decidiu abandonar a posição africana. Parte de sua população portuguesa foi retirada, passou por Lisboa e depois foi destinada à Amazônia portuguesa.
O objetivo era estabelecer uma nova comunidade no extremo norte da colônia e, ao mesmo tempo, aproveitar um grupo de famílias já ligado à administração e defesa imperial.
Nova Mazagão não foi fundada em 1753
Essa é uma correção importante em relação à versão antiga deste artigo.
A transferência da Mazagão africana ocorre a partir de 1769. A instalação da nova povoação amazônica acontece no início da década de 1770.
Fontes oficiais do Amapá usam 1770 como marco da fundação da vila, enquanto o Iphan registra a Festa de São Tiago sendo realizada desde 1772. Outras fontes governamentais situam as encenações das batalhas em 1777.
Essas diferenças mostram que a história não cabe bem em uma única data simplificada. O mais correto é entender Mazagão como um processo de transferência e implantação desenvolvido entre o fim da década de 1760 e o início da década de 1770.
Da África para a Amazônia

As famílias de Mazagão não atravessaram diretamente do Marrocos ao Amapá. O deslocamento envolveu etapas.
Após a retirada da praça africana, parte da população foi enviada a Portugal. Depois, grupos seguiram para Belém e, posteriormente, para a nova povoação amazônica.
Esse percurso — África, Europa e Amazônia — ajuda a explicar por que Mazagão Velho ocupa lugar tão específico nos estudos sobre colonização portuguesa.
O que aconteceu com a Nova Mazagão?
A implantação enfrentou enormes dificuldades. Ambiente, doenças, abastecimento, distância e adaptação à realidade amazônica transformaram o projeto original.
Com o tempo, a importância administrativa se deslocou, e a antiga Nova Mazagão passou a ser conhecida como Mazagão Velho.
O que permaneceu não foi apenas o desenho de uma vila planejada, mas sobretudo uma memória coletiva que continuou a ser reelaborada pelos moradores.
Arquitetura e arqueologia: o que realmente importa?
A versão anterior deste artigo afirmava que a atual Igreja Matriz de São Sebastião seria uma igreja barroca do século XVIII tombada pelo Iphan. Não encontramos base suficiente para manter essa descrição.
O valor histórico de Mazagão Velho deve ser tratado de maneira mais ampla. Pesquisas patrimoniais e arqueológicas analisam o traçado urbano, ruínas, espaços religiosos, vestígios da implantação colonial e a relação entre cidade construída e memória social.
O Iphan já realizou inventários relacionados à cidade e acompanha manifestações culturais da comunidade.
A Festa de São Tiago é o grande eixo da identidade local
A Festa de São Tiago é a manifestação mais conhecida de Mazagão Velho e uma das principais celebrações culturais e religiosas do Amapá.
O Iphan informa que a festa é realizada desde o século XVIII e representa, nas ruas da vila, confrontos entre mouros e cristãos relacionados à memória da antiga Mazagão africana.
Em 2026, a celebração chegou aos 249 anos, segundo o Governo do Estado do Amapá.
Iphan — patrimônio imaterial no Amapá.
Como funciona a Festa de São Tiago?

A festa não é apenas uma procissão nem apenas uma cavalhada. Ela combina:
- atos religiosos;
- missas e procissões;
- personagens tradicionais;
- encenações teatrais nas ruas;
- representações da luta entre mouros e cristãos;
- cavaleiros;
- rituais transmitidos pela comunidade;
- programação musical e cultural;
- participação de crianças em versões próprias da celebração.
O conjunto forma uma narrativa pública sobre fé, origem e pertencimento.
Por que mouros e cristãos aparecem no Amapá?
Essa é justamente uma das singularidades de Mazagão Velho.
A representação remete a conflitos presentes na memória da Mazagão portuguesa no norte da África. Quando a comunidade foi transferida para a Amazônia, essas narrativas religiosas e militares viajaram com ela.
Ao longo dos séculos, porém, a tradição deixou de ser mera reprodução europeia ou africana. Ela foi reinterpretada dentro da realidade amazônica e incorporada à vida social de Mazagão Velho.
Uma tradição transmitida também pelas crianças
Um dos aspectos mais relevantes da Festa de São Tiago é a transmissão intergeracional.
A programação tradicional inclui momentos protagonizados por crianças, que repetem rituais e personagens apresentados anteriormente pelos adultos. Isso cria uma espécie de aprendizagem prática da tradição.
Não é apenas alguém contando a história a uma criança: a criança participa da própria encenação que ajudará a manter no futuro.
Festa religiosa, teatro e memória social ao mesmo tempo
Estudos publicados pelo Iphan ajudam a entender por que a Festa de São Tiago não deve ser descrita apenas como atração turística.
Durante o período festivo, religião, economia, relações familiares, comércio, sociabilidade e memória coletiva se cruzam.
As ruas da vila viram palco, mas os “atores” são integrantes da própria comunidade. A dramatização, portanto, faz parte da vida social local.
A economia local também muda durante a festa
O impacto cultural possui uma dimensão econômica concreta.
Em 2025, pesquisa do Governo do Amapá estimou mais de R$ 1,3 milhão em comercialização durante a Festa de São Tiago, com levantamento realizado junto a empreendedores locais.
Artesanato, alimentação, hospedagem, transporte e comércio ganham movimento durante o período.
Esse dado ajuda a mostrar que preservar a manifestação cultural também pode gerar renda — desde que o crescimento da visitação respeite a comunidade.
Artesanato e empreendedorismo

Durante a Festa de São Tiago, espaços destinados a artesãos e pequenos empreendedores fazem parte da programação e da economia temporária criada pelo evento.
É mais seguro tratar o artesanato dessa forma do que listar técnicas específicas como se fossem exclusivas de Mazagão Velho sem fonte adequada.
O importante é compreender que produção artesanal, comércio e festa se conectam e oferecem aos moradores uma oportunidade de renda e exposição de seus trabalhos.
Religiosidade em Mazagão Velho vai além de São Tiago

Mazagão Velho possui um calendário religioso amplo. O próprio Iphan descreve a vila como marcada por numerosas festas de santos ao longo do ano.
A Festa de São Tiago é a mais conhecida, mas não é a única manifestação de fé e identidade comunitária.
Essa recorrência de festas ajuda a explicar por que religiosidade e vida coletiva permanecem tão conectadas.
E o Marabaixo?
O Marabaixo é uma expressão fundamental da cultura afro-amapaense e também aparece nos trabalhos de patrimônio imaterial realizados no estado.
É importante, porém, não misturar manifestações diferentes como se fossem uma única festa. São Tiago e Marabaixo possuem histórias, ritos e contextos próprios.
A riqueza cultural do Amapá está justamente na coexistência dessas diferentes tradições.
O papel do Iphan
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional realizou o Inventário Nacional de Referências Culturais de Mazagão Velho e acompanha pesquisas relacionadas às manifestações da comunidade.
O órgão também registra trabalho de inventário da Festividade de São Tiago.
Isso mostra uma mudança importante na forma de pensar patrimônio: não se trata apenas de tombar prédios. Saberes, rituais, memórias e práticas coletivas também precisam ser documentados.
Mazagão Velho como destino de turismo cultural
Para o visitante, o principal valor de Mazagão Velho não é encontrar uma coleção de monumentos restaurados como em algumas cidades históricas do Sudeste.
A experiência está na combinação entre:
- história transatlântica;
- paisagem amazônica;
- memória comunitária;
- religiosidade;
- festas tradicionais;
- ruas e espaços ligados à antiga implantação colonial.
Quem gosta de turismo histórico pode complementar essa leitura com nosso conteúdo sobre a importância do patrimônio histórico de Salvador para o turismo, outro exemplo brasileiro em que patrimônio material e identidade cultural precisam ser analisados juntos.
Qual é a melhor época para conhecer Mazagão Velho?
Se o objetivo principal é acompanhar a Festa de São Tiago, julho é o período mais importante. Em 2026, a programação ocorreu entre 16 e 28 de julho.
Para anos futuros, não assuma que todos os horários e detalhes permanecerão iguais. A programação oficial deve ser consultada novamente.
Visitar durante a festa ou fora dela?
Durante a Festa de São Tiago
É quando a dimensão cultural da vila fica mais evidente, mas também há maior movimento, necessidade de organização de transporte e pressão sobre a estrutura local.
Fora da festa
Permite observar a vila com mais calma e compreender melhor seu traçado e cotidiano, porém sem a experiência das encenações e rituais que tornaram Mazagão Velho conhecida.
Como visitar com respeito à comunidade
- não trate rituais religiosos como simples espetáculo;
- peça autorização antes de fotografar pessoas de perto;
- compre de comerciantes e artesãos locais quando possível;
- não entre em áreas religiosas ou privadas sem orientação;
- evite interromper cortejos para obter fotos;
- não use estereótipos sobre “tradição congelada no tempo”;
- lembre que Mazagão Velho é uma comunidade viva, não um cenário turístico.
O que a história de Mazagão Velho ensina?
A vila ajuda a compreender que a história do Brasil colonial não aconteceu apenas no eixo litoral–Sudeste.
Ela conecta África, Portugal e Amazônia em um mesmo processo histórico e mostra como uma política colonial planejada pela Coroa foi reinterpretada por gerações que construíram sua própria identidade local.
A Festa de São Tiago é talvez o exemplo mais evidente disso: uma narrativa ligada ao passado africano português transformada, ao longo de mais de dois séculos, em patrimônio cultural amazônico.
Perguntas frequentes
Mazagão Velho foi fundado por portugueses vindos do Marrocos?
A comunidade está ligada às famílias retiradas da antiga Mazagão portuguesa no Marrocos. O processo passou por Portugal e Belém antes da instalação da nova povoação na Amazônia.
Quando Mazagão Velho foi fundado?
Fontes oficiais utilizam o início da década de 1770 como referência para a implantação de Nova Mazagão. A data de 1753 presente na versão antiga deste artigo estava incorreta.
A Festa de São Tiago acontece desde quando?
O Iphan registra a festa desde 1772. Fontes do Governo do Amapá registram as encenações das batalhas a partir de 1777. Em 2026, o governo estadual celebrou os 249 anos da festividade.
O que é encenado na Festa de São Tiago?
A programação representa episódios ligados à batalha entre mouros e cristãos, com personagens, cavalhadas, procissões, atos religiosos e teatro nas ruas da vila.
Mazagão Velho é patrimônio tombado?
Há atuação do Iphan por meio de inventários e estudos de referências culturais, mas não é correto resumir o valor da vila dizendo que toda sua arquitetura ou a atual igreja seriam automaticamente tombadas. Patrimônio material e imaterial precisam ser diferenciados.
Fontes consultadas
- Iphan — Patrimônio Imaterial no Amapá
- Governo do Amapá — Festa de São Tiago 2026
- Governo do Amapá — história da Festa de São Tiago
- Iphan — Revista do Patrimônio sobre Mazagão Velho
Conteúdo revisado em 11 de setembro de 2026. Datas de programação festiva devem ser confirmadas a cada edição.
