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Mazagão

Mazagão Velho: História, Festa de São Tiago e Importância Cultural

Entenda a história de Mazagão Velho, no Amapá, da transferência da Mazagão africana à Festa de São Tiago, ao patrimônio, à memória comunitária e ao turismo cultural.

Vista histórica de Mazagão Velho no Amapá na década de 1960
Registro histórico de Mazagão Velho. A vila atual é herdeira da Nova Mazagão criada pela Coroa portuguesa no século XVIII para receber famílias transferidas do norte da África.

Mazagão Velho, no Amapá, é um dos casos mais singulares da história colonial portuguesa na Amazônia. A vila está ligada diretamente à antiga Mazagão africana — hoje El Jadida, no Marrocos — e à transferência, no século XVIII, de famílias portuguesas que deixaram o norte da África, passaram por Portugal e Belém e foram encaminhadas para uma nova povoação amazônica.

Mas reduzir Mazagão Velho a uma “cidade histórica” seria pouco. Sua importância cultural está principalmente na forma como a comunidade transformou essa memória em tradição viva: festas religiosas, encenações de mouros e cristãos, vínculos familiares, saberes locais, artesanato, religiosidade e práticas transmitidas entre gerações.

Este conteúdo foi revisado em 11 de setembro de 2026 com base em fontes do Iphan, do Governo do Amapá e estudos patrimoniais. A versão anterior continha datas e afirmações arquitetônicas que não se sustentavam.

Onde fica Mazagão Velho?

Mazagão Velho é um distrito do município de Mazagão, no estado do Amapá. A vila histórica não deve ser confundida com a sede municipal conhecida como Mazagão Novo.

O local está inserido em uma paisagem amazônica marcada por rios, comunidades tradicionais e forte calendário religioso.

Por que Mazagão Velho é tão diferente de outras vilas coloniais?

A origem da comunidade está associada a um processo incomum de deslocamento populacional promovido pela Coroa portuguesa.

Portugal mantinha desde o século XVI a praça fortificada de Mazagão, no litoral do atual Marrocos. Em 1769, a Coroa decidiu abandonar a posição africana. Parte de sua população portuguesa foi retirada, passou por Lisboa e depois foi destinada à Amazônia portuguesa.

O objetivo era estabelecer uma nova comunidade no extremo norte da colônia e, ao mesmo tempo, aproveitar um grupo de famílias já ligado à administração e defesa imperial.

Nova Mazagão não foi fundada em 1753

Essa é uma correção importante em relação à versão antiga deste artigo.

A transferência da Mazagão africana ocorre a partir de 1769. A instalação da nova povoação amazônica acontece no início da década de 1770.

Fontes oficiais do Amapá usam 1770 como marco da fundação da vila, enquanto o Iphan registra a Festa de São Tiago sendo realizada desde 1772. Outras fontes governamentais situam as encenações das batalhas em 1777.

Essas diferenças mostram que a história não cabe bem em uma única data simplificada. O mais correto é entender Mazagão como um processo de transferência e implantação desenvolvido entre o fim da década de 1760 e o início da década de 1770.

Da África para a Amazônia

Vista histórica de Mazagão Velho no Amapá na década de 1960
Registro histórico de Mazagão Velho. A comunidade atual está ligada à transferência da Mazagão portuguesa do norte da África para a Amazônia no século XVIII.

As famílias de Mazagão não atravessaram diretamente do Marrocos ao Amapá. O deslocamento envolveu etapas.

Após a retirada da praça africana, parte da população foi enviada a Portugal. Depois, grupos seguiram para Belém e, posteriormente, para a nova povoação amazônica.

Esse percurso — África, Europa e Amazônia — ajuda a explicar por que Mazagão Velho ocupa lugar tão específico nos estudos sobre colonização portuguesa.

O que aconteceu com a Nova Mazagão?

A implantação enfrentou enormes dificuldades. Ambiente, doenças, abastecimento, distância e adaptação à realidade amazônica transformaram o projeto original.

Com o tempo, a importância administrativa se deslocou, e a antiga Nova Mazagão passou a ser conhecida como Mazagão Velho.

O que permaneceu não foi apenas o desenho de uma vila planejada, mas sobretudo uma memória coletiva que continuou a ser reelaborada pelos moradores.

Arquitetura e arqueologia: o que realmente importa?

A versão anterior deste artigo afirmava que a atual Igreja Matriz de São Sebastião seria uma igreja barroca do século XVIII tombada pelo Iphan. Não encontramos base suficiente para manter essa descrição.

O valor histórico de Mazagão Velho deve ser tratado de maneira mais ampla. Pesquisas patrimoniais e arqueológicas analisam o traçado urbano, ruínas, espaços religiosos, vestígios da implantação colonial e a relação entre cidade construída e memória social.

O Iphan já realizou inventários relacionados à cidade e acompanha manifestações culturais da comunidade.

A Festa de São Tiago é o grande eixo da identidade local

A Festa de São Tiago é a manifestação mais conhecida de Mazagão Velho e uma das principais celebrações culturais e religiosas do Amapá.

O Iphan informa que a festa é realizada desde o século XVIII e representa, nas ruas da vila, confrontos entre mouros e cristãos relacionados à memória da antiga Mazagão africana.

Em 2026, a celebração chegou aos 249 anos, segundo o Governo do Estado do Amapá.

Iphan — patrimônio imaterial no Amapá.

Como funciona a Festa de São Tiago?

Encenação da Festa de São Tiago em Mazagão Velho, Amapá
A Festa de São Tiago transforma as ruas de Mazagão Velho em palco para a representação de mouros e cristãos.

A festa não é apenas uma procissão nem apenas uma cavalhada. Ela combina:

  • atos religiosos;
  • missas e procissões;
  • personagens tradicionais;
  • encenações teatrais nas ruas;
  • representações da luta entre mouros e cristãos;
  • cavaleiros;
  • rituais transmitidos pela comunidade;
  • programação musical e cultural;
  • participação de crianças em versões próprias da celebração.

O conjunto forma uma narrativa pública sobre fé, origem e pertencimento.

Por que mouros e cristãos aparecem no Amapá?

Essa é justamente uma das singularidades de Mazagão Velho.

A representação remete a conflitos presentes na memória da Mazagão portuguesa no norte da África. Quando a comunidade foi transferida para a Amazônia, essas narrativas religiosas e militares viajaram com ela.

Ao longo dos séculos, porém, a tradição deixou de ser mera reprodução europeia ou africana. Ela foi reinterpretada dentro da realidade amazônica e incorporada à vida social de Mazagão Velho.

Uma tradição transmitida também pelas crianças

Um dos aspectos mais relevantes da Festa de São Tiago é a transmissão intergeracional.

A programação tradicional inclui momentos protagonizados por crianças, que repetem rituais e personagens apresentados anteriormente pelos adultos. Isso cria uma espécie de aprendizagem prática da tradição.

Não é apenas alguém contando a história a uma criança: a criança participa da própria encenação que ajudará a manter no futuro.

Festa religiosa, teatro e memória social ao mesmo tempo

Estudos publicados pelo Iphan ajudam a entender por que a Festa de São Tiago não deve ser descrita apenas como atração turística.

Durante o período festivo, religião, economia, relações familiares, comércio, sociabilidade e memória coletiva se cruzam.

As ruas da vila viram palco, mas os “atores” são integrantes da própria comunidade. A dramatização, portanto, faz parte da vida social local.

A economia local também muda durante a festa

O impacto cultural possui uma dimensão econômica concreta.

Em 2025, pesquisa do Governo do Amapá estimou mais de R$ 1,3 milhão em comercialização durante a Festa de São Tiago, com levantamento realizado junto a empreendedores locais.

Artesanato, alimentação, hospedagem, transporte e comércio ganham movimento durante o período.

Esse dado ajuda a mostrar que preservar a manifestação cultural também pode gerar renda — desde que o crescimento da visitação respeite a comunidade.

Artesanato e empreendedorismo

Artesanato exposto durante a Festa de São Tiago em Mazagão Velho
A festividade também movimenta artesanato, comércio e pequenos empreendedores da comunidade.

Durante a Festa de São Tiago, espaços destinados a artesãos e pequenos empreendedores fazem parte da programação e da economia temporária criada pelo evento.

É mais seguro tratar o artesanato dessa forma do que listar técnicas específicas como se fossem exclusivas de Mazagão Velho sem fonte adequada.

O importante é compreender que produção artesanal, comércio e festa se conectam e oferecem aos moradores uma oportunidade de renda e exposição de seus trabalhos.

Religiosidade em Mazagão Velho vai além de São Tiago

Festival em Mazagão Velho no Amapá
Mazagão Velho mantém um calendário religioso e comunitário amplo, no qual festas e memória social permanecem conectadas.

Mazagão Velho possui um calendário religioso amplo. O próprio Iphan descreve a vila como marcada por numerosas festas de santos ao longo do ano.

A Festa de São Tiago é a mais conhecida, mas não é a única manifestação de fé e identidade comunitária.

Essa recorrência de festas ajuda a explicar por que religiosidade e vida coletiva permanecem tão conectadas.

E o Marabaixo?

O Marabaixo é uma expressão fundamental da cultura afro-amapaense e também aparece nos trabalhos de patrimônio imaterial realizados no estado.

É importante, porém, não misturar manifestações diferentes como se fossem uma única festa. São Tiago e Marabaixo possuem histórias, ritos e contextos próprios.

A riqueza cultural do Amapá está justamente na coexistência dessas diferentes tradições.

O papel do Iphan

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional realizou o Inventário Nacional de Referências Culturais de Mazagão Velho e acompanha pesquisas relacionadas às manifestações da comunidade.

O órgão também registra trabalho de inventário da Festividade de São Tiago.

Isso mostra uma mudança importante na forma de pensar patrimônio: não se trata apenas de tombar prédios. Saberes, rituais, memórias e práticas coletivas também precisam ser documentados.

Mazagão Velho como destino de turismo cultural

Para o visitante, o principal valor de Mazagão Velho não é encontrar uma coleção de monumentos restaurados como em algumas cidades históricas do Sudeste.

A experiência está na combinação entre:

  • história transatlântica;
  • paisagem amazônica;
  • memória comunitária;
  • religiosidade;
  • festas tradicionais;
  • ruas e espaços ligados à antiga implantação colonial.

Quem gosta de turismo histórico pode complementar essa leitura com nosso conteúdo sobre a importância do patrimônio histórico de Salvador para o turismo, outro exemplo brasileiro em que patrimônio material e identidade cultural precisam ser analisados juntos.

Qual é a melhor época para conhecer Mazagão Velho?

Se o objetivo principal é acompanhar a Festa de São Tiago, julho é o período mais importante. Em 2026, a programação ocorreu entre 16 e 28 de julho.

Para anos futuros, não assuma que todos os horários e detalhes permanecerão iguais. A programação oficial deve ser consultada novamente.

Visitar durante a festa ou fora dela?

Durante a Festa de São Tiago

É quando a dimensão cultural da vila fica mais evidente, mas também há maior movimento, necessidade de organização de transporte e pressão sobre a estrutura local.

Fora da festa

Permite observar a vila com mais calma e compreender melhor seu traçado e cotidiano, porém sem a experiência das encenações e rituais que tornaram Mazagão Velho conhecida.

Como visitar com respeito à comunidade

  • não trate rituais religiosos como simples espetáculo;
  • peça autorização antes de fotografar pessoas de perto;
  • compre de comerciantes e artesãos locais quando possível;
  • não entre em áreas religiosas ou privadas sem orientação;
  • evite interromper cortejos para obter fotos;
  • não use estereótipos sobre “tradição congelada no tempo”;
  • lembre que Mazagão Velho é uma comunidade viva, não um cenário turístico.

O que a história de Mazagão Velho ensina?

A vila ajuda a compreender que a história do Brasil colonial não aconteceu apenas no eixo litoral–Sudeste.

Ela conecta África, Portugal e Amazônia em um mesmo processo histórico e mostra como uma política colonial planejada pela Coroa foi reinterpretada por gerações que construíram sua própria identidade local.

A Festa de São Tiago é talvez o exemplo mais evidente disso: uma narrativa ligada ao passado africano português transformada, ao longo de mais de dois séculos, em patrimônio cultural amazônico.

Perguntas frequentes

Mazagão Velho foi fundado por portugueses vindos do Marrocos?

A comunidade está ligada às famílias retiradas da antiga Mazagão portuguesa no Marrocos. O processo passou por Portugal e Belém antes da instalação da nova povoação na Amazônia.

Quando Mazagão Velho foi fundado?

Fontes oficiais utilizam o início da década de 1770 como referência para a implantação de Nova Mazagão. A data de 1753 presente na versão antiga deste artigo estava incorreta.

A Festa de São Tiago acontece desde quando?

O Iphan registra a festa desde 1772. Fontes do Governo do Amapá registram as encenações das batalhas a partir de 1777. Em 2026, o governo estadual celebrou os 249 anos da festividade.

O que é encenado na Festa de São Tiago?

A programação representa episódios ligados à batalha entre mouros e cristãos, com personagens, cavalhadas, procissões, atos religiosos e teatro nas ruas da vila.

Mazagão Velho é patrimônio tombado?

Há atuação do Iphan por meio de inventários e estudos de referências culturais, mas não é correto resumir o valor da vila dizendo que toda sua arquitetura ou a atual igreja seriam automaticamente tombadas. Patrimônio material e imaterial precisam ser diferenciados.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 11 de setembro de 2026. Datas de programação festiva devem ser confirmadas a cada edição.